Parada, pensando e imaginando como seria o ano que está por vir… E, para isso, de alguma forma, retorno ao ano que foi.
Tentei fazer diferente este ano: ao invés de tentar acreditar que, magicamente, eu seria uma nova pessoa, resolvi fazer uma retrospectiva sobre quem eu fui durante o ano e o que eu gostaria de levar comigo e, principalmente, os pontos a serem melhorados (adoro essa frase, porque só me recordo da minha professora nos orientando que não se diz a um colaborador que são “defeitos”, mas sim “pontos a serem desenvolvidos”).
E acho que, nessa dinâmica, acabei tentando também agradecer a tudo o que estou vivendo neste momento. Sinto que, muito do ano passado para cá, principalmente depois que as coisas começaram a fluir de alguma forma e novos começos foram surgindo, comecei a internalizar em mim mesma que estava tudo bem errar. No sentido de que estou aprendendo. Sei que vou me esforçar para dar o meu melhor naquilo que me proponho a fazer, mas, no fim, tudo é uma questão de entender que as coisas levam tempo (por mais que eu odeie isso).
Acho que tentar pensar desse jeito fez com que eu me respeitasse mais e, principalmente, repetisse para mim mesma que estou sempre em desenvolvimento. Obviamente, tenho uma meta a ser atingida, sei o tipo de pessoa que gostaria de ser no futuro… Mas, no fim, se trata justamente disso: do futuro. Algo que eu não posso controlar. O que eu posso controlar é o hoje. Então, ao invés de começar a surtar sobre quem eu serei, comecei a me questionar: “O que posso fazer hoje para conseguir chegar onde quero?”. Porque, por mais que eu queira muito (queira para ontem, se possível), comecei a entender que tudo acontece no seu devido tempo. Então, se hoje eu não sei algo, por exemplo, nas questões profissionais e acadêmicas, sei que amanhã posso saber.
Acho que comecei a me permitir mais… A perguntar mais (algo que eu não fazia)… A deixar um pouco a ansiedade de lado, porque ainda existe tempo…
E, nessa ideia de tempo, algo sobre o qual venho refletindo muito, às vezes de um jeito nostálgico, às vezes de um jeito melancólico, às vezes apenas para sorrir boba ao vento… é que o tempo passa!!!
Obviamente o tempo passa, não sou burra. Mas acho que existe um momento na vida de todo mundo (dito por mim, limitada à minha experiência) em que a chave vira e começamos a entender a complexidade, na verdade, o peso, que é compreender, de fato, que o tempo passa. Quando se é criança ou adolescente, essa visão é tão distorcida, porque, acredito eu, somos eximidos das responsabilidades e obrigações da vida. Então, quando todo mundo fala “aproveite o tempo que lhe pertence”, você ainda bate o pé e retruca a famosa frase: “não vejo a hora de poder ser adulto e fazer o que quiser”.
Queria poder dizer que fui diferente, mas acho que houve vezes em que fiz até contagem regressiva para a minha maioridade, como se, de alguma forma (ingenuidade minha, eu sei), magicamente eu fosse me tornar uma pessoa independente, com carro, casa e muito dinheiro na conta para viajar para todos os lugares que planejei.
Mas, à medida que vamos crescendo, algo vai mudando… Tenho absoluta certeza de que é a maturidade que vamos adquirindo, mas, para mim, em algum momento, que não sei dizer exatamente qual, algo realmente mudou. E foi ali, no cotidiano, que fui percebendo que o tempo passa. As coisas que você adorava fazer vão ficando de lado, dando espaço às obrigações. As tradições, por mais que o apego afetivo ainda esteja ali, vão aos poucos se diluindo ou se transformando.
E não estou dizendo que se transformar é ruim, muito pelo contrário. É belo saber que sempre há uma oportunidade para ser diferente. Mas, ainda assim, entende-se que elas nunca mais irão voltar da mesma forma. Que foi. Que aconteceu. Que existiu. Mas nunca será igual.
Acho que, aos poucos, durante este final de ano, fui colocando muito na balança e finalmente aplicando, na prática, o “focar no aqui e no agora”. Porque, por mais que o passado sempre exista, ele já foi; por mais que o futuro nos proporcione inúmeras possibilidades, ele ainda há de acontecer; mas o presente é a única coisa que podemos, de fato, controlar.
Então, quando penso na pessoa que eu estava sendo, coloquei na minha cabeça que, quando fosse viajar no final do ano, iria colocar isso em prática também: aproveitar aquele momento. Isso se deu, inclusive, porque antes mesmo de viajar fiquei pensando em quantas coisas já mudaram desde a última vez que fui para lá.
Antes, eu e minhas primas tínhamos todos os dias livres para brincar e passear; agora, todas estão trabalhando. Ver familiares que eu lembrava crianças e agora estão crescidos (pareço velha, eu sei, mas choca muito, principalmente quando você passa um ano sem ver). Escutar as histórias do dia a dia deles, as coisas que acontecem e das quais eu não estive presente. Ou ouvir histórias em que vocês viveram juntos e rir de cada uma. Relembrar tradições de Natal, como eu e minhas primas vestindo a mesma roupa (algo que ainda tenho como meta repetir). E perceber também como, a cada Natal, cada um vai construindo o próprio caminho, tomando novos rumos, entendendo que a cada dia, mês ou ano que passa, algo muda. E aquilo que foi vivido, por mais incrível que tenha sido, não retorna.
De certa forma, isso faz você entender a importância do tempo. A importância de viver. De não apenas existir todos os dias, mas de compreender a própria existência para si.
Assim, nessa última viagem, senti que realmente aproveitei. Que fiquei off do celular e vivi cada momento. Tentei registrar tudo, não de forma física, mas entendendo a importância e a maneira como eu gostaria de relembrar daqueles dias que estavam passando. Foi uma experiência diferente, não vou mentir. Como? Ainda não sei explicar exatamente. Mas me senti em paz.
Claro que estar viajando, ter belas vistas e descansar são fatores que ajudam bastante. Mas me senti, e me perdoe se soar brega, como se eu estivesse lendo um livro. E essa sensação é difícil de explicar para quem não tem o hábito da leitura…
Quando você lê algo que realmente gosta, não é apenas acompanhar uma história: é se dissolver nela. É como se o mundo ao redor fosse ficando em segundo plano, enquanto sua mente cria imagens, sons, emoções, tudo o que você conseguir imaginar. Você não apenas observa à narrativa, você participa dela.
É uma imersão silenciosa e poderosa, como se, por alguns instantes, você tivesse controle absoluto do tempo, das cenas e dos sentimentos. Não chega nem perto de ser um ‘mergulho’, porque mergulhar ainda pressupõe que você sabe de onde veio e para onde pode voltar. É mais como se você se projetasse para dentro da própria mente, ou fosse transportado para outro lugar, um espaço que existe só enquanto a leitura acontece. A cada parágrafo, esse mundo vai se ajustando, como se você mesmo estivesse moldando tudo aquilo.
Você sente que pertence àquele lugar, mesmo sabendo que é ficção. E, mesmo sabendo que a narrativa dita os caminhos, existe uma sensação poderosa de controle, de que tudo é possível, de que você pode tudo. É um bem-estar que vem acompanhado de determinação, de presença, de força. Você sente na pele que está vivendo aquilo, que quer mais, que, no fundo, gostaria de ter realmente passado por aquilo de alguma forma, de que aquela experiência também fosse sua… Nem que fosse só para provar a si mesma que conseguiria.
Parecia outra realidade.
Sei que quebrar o cotidiano renova as energias, mas quero levar comigo essa sensação. Foi algo que melhorei, e claro que ainda há chão para que se torne algo rotineiro, mas é isso que quero viver todos os dias (ou pelo menos na maioria deles): como se eu estivesse lendo um livro.