Sim, eu viajo para outro Estado para ir ao shopping. E sim, minha cidade tem shopping.
Todo ano, quando vou visitar a minha família materna, temos o costume de ir ao shopping. Mas, é claro, não é o lugar em si que faz valer a pena; é o fazer as coisas em família que transforma tudo em um momento único.
Seja para ir ao cinema, algo que eu amava, porque sempre tinha a certeza de que antes, ou quase sempre depois, eu iria comer um lanche do McDonald’s. Lembro que muitas vezes era uma luta decidir o filme, principalmente quando eu era mais nova e implorava para minha mãe deixar que eu fosse sozinha, mas ela sempre se recusava. Observar, a cada ano, o aumento do preço da pipoca e do ingresso e se assustar com isso. Lembrar-se de todas as vezes que saíamos do cinema e íamos automaticamente ao banheiro, porque sempre tinha alguém que estava muito apertado.
Ou então ir à finada Saraiva. Para mim, que sempre amei livros, aquilo era um evento. Eu comprava alguma coisa? Na maioria das vezes, não. Na verdade, quase nunca, só me recordo de ter comprado, chutando muito alto, uma ou duas vezes. Mas, obviamente, pegava vários livros e passava na leitora de preços só por curiosidade. Lembro exatamente da sensação de animação e ansiedade ao avistar as escadas rolantes que levavam a um universo de livros. De passar pelo menos uma hora lá dentro, anotando e tirando foto de cada título que parecia interessante e que eu tinha certeza de que conseguiria ler ainda naquele ano. De ir à seção de línguas estrangeiras ou até mesmo à de turismo e me imaginar em cada país ilustrado nas capas.
Ao lado, as luzes piscando chamavam a atenção, feitas sob medida para crianças atentadas como eu, enchendo o saco dos pais para subir “só para ver” e depois insistindo em colocar mais um pouquinho de crédito para o último brinquedo. Os incontáveis tickets acumulados entre nós, na esperança de trocar na loja por algo grandioso, e no fim conseguir apenas o prêmio mais básico do básico e, mesmo assim, repetir tudo de novo no ano seguinte. A famosa montanha-russa que, por menor que fosse, dava uma adrenalina enorme e era um dos brinquedos favoritos, fazendo com que entrássemos na fila várias e várias vezes (e coloco várias nisso).
Só que este ano foi diferente. Como eu disse, a Saraiva está finada. E já não temos mais tamanho para muitos dos brinquedos que amávamos.
Este ano fomos fazer compras. Compras de Natal. Cheguei mais cedo com minha mãe, minha tia e minha prima mais nova. Observamos as lojas, vimos brinquedos, conversamos. Minhas duas primas chegaram mais tarde, depois do trabalho. Olhamos roupas, julgamos, amamos. Experimentamos juntas. Tentamos fazer com que cada uma colocasse uma roupa e saísse do provador ao mesmo tempo (o que só funcionou uma vez, já que cada uma tem seu próprio ritmo), mas foi divertido mesmo assim.
E, claro, para finalizar, não podia faltar algo diferente. Fomos a um pula-pula. Um parque de pula-pula. Não me recordo o nome, mas era algo que eu sempre quis fazer. Lembro que passei literalmente o ano inteiro dizendo que queria ir a um desses, mas a vida não me proporcionava esse evento… Quero dizer, ela me fez esperar doze meses até me entregar esse momento. E, por mais que tenha demorado para um diacho, ele aconteceu, e da maneira mais incrível possível. Ao lado das minhas primas, rindo, correndo, cansando, pulando, se jogando, conversando, fazendo tudo o que sempre fizemos… mas de um jeito diferente.
E isso é o belo. As coisas mudam. E cada momento, à sua maneira, permanece. Cada um desses momentos foi, e é, importante para mim, e obviamente adoraria revivê-los. Mas, infelizmente, isso não será possível, a não ser que alguém invente uma máquina do tempo antes de eu morrer. E entendo também que, mesmo que no futuro tentemos recriar esses momentos, será apenas isso: uma recriação. Porque ali estará presente algo maior, o fato de que crescemos e de que as coisas são diferentes.
E não digo isso de forma melancólica, mas como quem observa um território novo, inexplorado. É interessante ver as mudanças acontecendo, ainda que às vezes doa perceber que estamos crescendo e que as coisas continuarão seguindo seu curso.
Sinto orgulho de cada uma, por se tornarem quem estão se tornando, por buscarem seus rumos e construírem suas próprias vidas. E, por esse mesmo motivo, sei que existe a possibilidade de não estarmos sempre juntas, mantendo a tradição de ir ao shopping todo final de ano. A vida continua acontecendo, cada uma de nós segue construindo seu próprio caminho, e talvez, em algum momento, eles não coincidam mais. Então, sim, fui várias vezes e continuarei indo enquanto me permitir viajar para outro lugar e ir ao shopping. Porque, em todas às vezes, vou aproveitar cada instante que estiver ali. Um dia, tudo isso será apenas memória, e será uma memória que vou amar relembrar, porque eu me permiti viver.
