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Lentes Trocadas

Acho muito engraçado quando a gente pega ranço de alguém, ou quando decide que só vai gostar de uma pessoa e passa a fazer de tudo por ela. Me julguem, mas eu estou assistindo BBB: por três meses, me permito ser alienada. Julgar a vida dos outros vira entretenimento, e está tudo certo. Pelo menos uma vez no ano, eu me dou esse direito.

Só que tem uma coisa que eu acho fascinante, além do programa expor a hipocrisia social e várias questões enraizadas que a gente tanto debate, é observar como as pessoas aplicam dois pesos e duas medidas. E é todo ano a mesma coisa. Sempre, de alguma forma, dá para perceber isso nos comentários das redes sociais e, consequentemente, na vida. Porque, no fim, você nunca vai conseguir agradar todo mundo. Quem gosta de você vai tentar te defender, passar pano; quem não gosta vai usar qualquer falha como argumento para te destruir.

E, antes de tudo, leiam esse texto considerando que não estou tomando partido de ninguém, nem falando de uma pessoa específica. Estou olhando para o todo (para nós, como sociedade, se quiser deixar mais poético). Mas é que eu sempre acho curioso como, diante de uma mesma situação, consigo encontrar comentários elogiando alguém e, logo abaixo, outros dizendo o quanto aquela pessoa é péssima.

No fundo, em quase todo reality, a gente percebe esse mesmo movimento: quando alguém de um grupo faz algo, aquilo tende a ser justificado; quando alguém do outro grupo faz exatamente a mesma coisa, passa a ser visto como algo desumano. Às vezes, uma pessoa se posiciona de forma firme e é vista como leal e corajosa; em outra situação, alguém faz algo muito parecido e é taxado de falso ou manipulador. E, curiosamente, quando o “favorito” repete uma atitude antes criticada, muita gente encontra uma forma de relativizar “ah, mas com ele é diferente”, “ele estava nervoso”, “não foi bem assim”.

E, de novo, a intenção aqui não é minimizar erros reais ou justificar comportamentos que ultrapassam limites (muitas coisas erradas acontecem, e isso merece ser criticado sim, mas essa já é outra análise). O que me chama atenção é como as mesmas atitudes podem ser vistas com lentes tão diferentes. É uma dualidade que, ao mesmo tempo em que me intriga, também me irrita.

Porque eu fico me perguntando: por que a tendência é sempre querer encontrar desculpas para quem a gente gosta, em vez de simplesmente reconhecer “isso não foi legal”? Por que a gente pisa tanto no outro, enquanto, quando alguém que admiramos faz exatamente a mesma coisa, tentamos amenizar?

Quero dizer, somos passíveis de errar e está tudo bem. Não é um crime admitir o erro de alguém de quem gostamos. Isso não é dar munição para o outro, é criar espaço para reconhecimento, para mudança. É permitir que a pessoa se responsabilize e, se quiser, peça desculpas. Porque, a partir do momento em que a gente tenta esconder ou ignorar um erro, é como se colocássemos aquela pessoa numa redoma de cristal, como se ela fosse perfeita. E, spoiler: ninguém é.

Então por que é tão difícil olhar e dizer: “nossa, realmente, ela errou e isso não é certo”? Lembrando que reconhecer um erro pode ser uma crítica construtiva, não um ataque. Porque, no fim, quando tudo vira defesa cega, você também acaba se perdendo nesse processo.

E onde quero chegar com tudo isso? É que se percebemos tudo volta à interpretação, aos pontos de vista e, sobretudo, a quem conta a história. De um lado, quem vive a situação a interpreta de um jeito; do outro, quem observa enxerga de outro. São formas diferentes de olhar para a mesma cena e, por isso, cada pessoa escolhe em quem acreditar. E aí a pergunta volta: por que o que o outro faz é errado e, quando é o favorito, passa a ser aceitável?

Porque a interpretação muda.

E, sendo um pouco previsível, mas trazendo uma citação que faz muito sentido aqui: “não é uma situação em si que determina o que as pessoas sentem e fazem, mas como elas interpretam essa situação” (Beck, 1964; Ellis, 1962 apud Beck, 2022).

No fim, pode até parecer só hipocrisia e, em muitos casos, é. Mas também existe algo mais profundo: a forma como cada pessoa interpreta o mundo. Quando vejo comentários completamente opostos em um mesmo vídeo, de gente elogiando, dizendo que é fã, e outros dizendo que não suportam, percebo que cada um está reagindo não só ao que viu, mas ao que aquilo representa dentro da sua própria história.

Às vezes, para mim, não faz sentido nenhum. Para você, talvez menos ainda. Mas, para aquela pessoa, faz, porque aquela interpretação conversa com tudo o que ela já viveu, com suas crenças, valores, referências e afetos.

E ignorar uma atitude errada também é, de certa forma, ignorar a condição humana de mudar. Afinal, todos nós já acreditamos em coisas que hoje não fazem mais sentido e talvez, amanhã, possamos mudar de novo. E isso não significa incoerência moral, mas transformação. Nossos pensamentos se reorganizam à medida que novas experiências, emoções e informações surgem. Por isso, apontar um erro também pode ser um ato de cuidado. É permitir que o outro tenha contato com aquilo, que reflita, que talvez reconheça e escolha agir diferente.

Claro, não sou ingênua a ponto de acreditar que todo mundo vai mudar imediatamente. Às vezes, isso leva meses, anos ou nem acontece. No fim, depende de cada um. Mas isso não deveria me impedir de reconhecer quando algo está errado só porque gosto da pessoa. Afinal, de novo, apontar erros também é uma forma de se importar. No fim das contas, a forma como escolho interpretar uma atitude diz muito mais sobre mim, sobre minhas crenças e valores, do que sobre a atitude em si.

Talvez o aprendizado não esteja em escolher um lado certo, mas em aprender a observar os meus próprios filtros. Entender que posso gostar de alguém e, ainda assim, reconhecer quando essa pessoa erra. E que posso criticar alguém sem precisar desumanizá-lo. Porque, no fim, o exercício mais difícil não é julgar o outro, é questionar a história que eu mesma conto sobre aquilo que estou vendo.

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