Quando digo que este ano pretendo viver a minha vida como se estivesse lendo um livro, quero dizer que quero aproveitar todos os momentos que me forem proporcionados. Precisamos parar de associar que histórias dignas de virar um livro necessariamente precisam ser majestosamente irreais, incríveis demais para serem verdade.
De fato, um livro, em sua maioria, será assim… Afinal, no fim, ele precisa ser vendido. Mas quando pensamos nessa analogia de que a nossa vida é um livro que estamos escrevendo, por que diabos eu só tenho que escrever as coisas magníficas que acontecem comigo?
Na verdade, se pararmos para pensar, todas as coisas podem ser magníficas. Então por que só conseguimos valorizar quando é algo fora da curva?
Vou um pouco longe agora. Imagine a perda de um celular (tive que pensar um pouco para não “matar” algum familiar e não pesar tanto o clima, mas vamos lá).
Você ficou com um celular por quatro anos, nem vou colocar tanto tempo para não parecer que estou apelando. Com ele, você tirou inúmeras fotos, derrubou diversas vezes, acessou aplicativos todos os dias, foi a vários lugares e eventos com ele sempre te acompanhando. Teve momentos em que seu coração quase parou achando que ele tinha quebrado. Outros em que você ficou com tanta raiva que pensou seriamente em tacá-lo na parede. Ainda assim, ele esteve lá. Presente nas mensagens respondidas às pressas, nas fotos antigas que você insiste em revisitar, nas músicas ouvidas em dias bons e ruins.
E com tudo isso que você viveu com esse celular, você pode dizer que ele só teve valor no dia em que você o ganhou? Só porque ele fazia parte da rotina? Só porque, depois de um tempo, você comprou outro melhor, mais novo, mais rápido? Aquele celular, mesmo com defeitos, mesmo travando, mesmo te fazendo passar raiva, foi importante. Ele esteve ali nos dias simples, nos dias cansativos, nos dias em que você quis chorar. Até nas coisas mais banais, abrir uma foto, responder uma mensagem, ele teve seu papel.
Então por que fazemos isso com a vida?
Por que só a colocamos em um pedestal quando algo foge do comum? Já reparou que só destacamos quando vira um evento? Festa de aniversário, formatura, conquistas grandiosas… Mas por que deixamos as coisas simples de lado?
Não estou dizendo para viver em um conto de fadas, acreditando que a vida vai ser um morango, fácil, e que tudo o que sonhar de fato irá acontecer. Não, muito pelo contrário (quem dera fosse assim). Mas será mesmo que as conversas que você tem com as pessoas não são importantes? Aquele programa que você adora assistir e ficar comentando depois? Aquela tarefa mais boba de casa não seria uma pequena conquista, já que, mesmo sem vontade, você acabou fazendo?
Se parar para pensar, até aquela briga feia que você jurava que faria o mundo acabar não te agregou nada? Não te fez refletir, entender algo novo, enxergar diferente?
Porque, por mais fútil que possa parecer (no sentido de ser só mais uma coisa banal do dia a dia), em algum momento isso pode fazer falta. Seja para lembrar do que não fazer, seja para lembrar o quanto foi maravilhoso. Assim como o celular: por mais que você compre um novo, ainda vai lembrar do antigo. Sempre haverá algo único sobre ele, nem que seja para reclamar. Mas ele foi importante. Ele esteve lá.
Então, de novo, será mesmo que eu devo desvalorizá-lo por completo só porque “não era grandioso demais”?
Porque, no fim, as coisas só se tornam magníficas a partir do momento em que nós atribuímos valor a elas, e não quando o outro valida. Enquanto acharmos que, para ser importante, algo precisa impressionar ou fugir do comum, talvez nunca consigamos reconhecer essas pequenas coisas do nosso dia a dia que acabam passando despercebidas, em vez de simplesmente aproveitar o momento. E, mais uma vez, por que diminuímos essas pequenas coisas como se elas não fossem importantes também?